DOS BALCÕES EM "U" AOS MARKETPLACES DE MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO

A foto que ilustra esse artigo é da Casa da Boia, fundada em 1898 pelo imigrante sírio Rizkallah Jorge Tahan, e que, há 123 anos, localiza-se na Rua Florêncio de Abreu, na região central de São Paulo. Até onde temos notícia, esse é o varejo mais antigo do segmento em atividade.

Então, vamos voltar no tempo, resgatando os fundamentos que originaram o varejo e o atacado, tendo como referência o livro Comércio de Materiais de Construção, de Geraldo Hélio Guimarães Amorim, editado em 1997, além de dados secundários de fontes confiáveis.

Bem, mas qual era a configuração do setor no início do século passado?

Existiam os comerciantes de médio porte, que vendiam de tudo um pouco, incluindo materiais de construção; os instaladores hidráulicos, que paralelamente, tinham pequenas indústrias e, com o tempo, pequenas lojas, que vendiam, além dos excedentes de sua produção, como calhas e condutores; boias, aplicação de chuveiro, registros, torneiras, ferragens etc. (originando, por exemplo, em 1918, a Di Cicco), e, por fim, os atacadistas, que só vendiam a produção de uma indústria, daí o nome “atacadistas exclusivistas”.

A maioria das lojas de materiais de construção tinha a mesma configuração: balcão em formato de “U” com prateleiras atrás, que por sua vez separavam a área de vendas do escritório. Os produtos em promoção se espalhavam pelo chão, no espaço interno desse “U”, e, muitas vezes, os tubos de ferro e demais materiais eram amontoados na frente dos balcões, obrigando os clientes a ficarem numa posição um tanto quanto incômoda para fazerem suas compras.

Foi nessa época que surgiu o termo balconista, fartamente utilizado até os dias de hoje.

Esse formato de loja, com poucas variações e inovações, permaneceu até o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, quando o nascimento e desenvolvimento de inúmeras indústrias de materiais de construção modernizou e alavancou o comércio, passando pelos atacadistas, que deixaram de ser exclusivos e aumentaram sua capilaridade, proporcionando, também, o desenvolvimento de novas lojas de pequeno e médio porte em localidades mais distantes.

Ainda, graças à proliferação das indústrias do setor, surgiram as lojas grandes, atendidas diretamente pelas indústrias, as avós daquilo que chamamos hoje de home center.

E, foi devido a evolução dessas lojas grandes, que uma delas, a Romano Center, autodenominada “O Fantástico Mundo da Construção”, apresentou o showroom de fábrica, em 1956, com ambientes montados com produtos vendidos na própria loja.

Era um período em que o meio de comunicação mais disruptivo da história até então, a televisão, colocava no ar novelas, artistas e casas – na verdade, cenários –, tornando todos os telespectadores visitas reparando nos lares dos anfitriões.

E, no ritmo da Bossa Nova, no início dos anos 60, surgiram duas feiras emblemáticas, em São Paulo: UD – Feira Nacional de Utilidades Domésticas e Salão do Automóvel, ambas realizadas pela Alcântara Machado, no Parque Ibirapuera. Dessa maneira, consolidavam-se grandes eventos de duas paixões dos consumidores da época (e, ainda de hoje, ao lado dos smartphones, claro!): seus lares e seus automóveis.

Houve, então, mais próximo ao final dos anos 60, com a política desenvolvimentista do milagre econômico brasileiro, uma explosão do setor construtivo e dos formatos de canais: lojas pequenas, médias, especializadas, lojas grandes, sendo que, nessas últimas, surgiu, de maneira mais contundente no Uemura Materiais de Construção, em 1968, a modalidade do autosserviço, já utilizada há décadas em outros segmentos, e que rapidamente se espalhou para as outras bandeiras.

Assim, o comércio do setor seguiu evoluindo sem grandes rupturas, passando pela ditadura, redemocratização, hiperinflação e Plano Real, em 1994, quando as regras do jogo do varejo, com a estabilização da moeda, começaram a ser jogadas de fato, nas quais as operações mais eficientes se impunham de maneira impiedosa, e, as menos eficientes, quebravam ou eram incorporadas por outros grupos, como, por exemplo, as outrora inovadoras Romano Center e Uemura, abrindo, também, caminho para a chegada de grupos internacionais, tanto no varejo, como na indústria de materiais de construção.

Por fim, no ano seguinte ao estouro da bolha da internet, em 2001, a C&C colocava no ar o primeiro comércio eletrônico de materiais de construção do Brasil, iniciativa seguida, nos anos posteriores, por vários home centers.

E, entre idas e vindas à garagem para aperfeiçoamento desses e-commerces (afinal, imaginem o tamanho do desafio de vender materiais de construção pela internet, e, ainda, entregá-los, na primeira década deste século), as operações foram sendo aprimoradas e integradas às lojas físicas (em andamento), tornando-as, cada vez mais, amigáveis e confiáveis para ressabiados consumidores finais.

Até que, em 2020, uma pandemia fez com que as vendas marginais dos canais online de materiais e itens para o lar decolassem, acelerando os processos desse aprimoramento, e, ainda, acelerando as embrionárias operações de marketplaces, possibilitando também aos lojistas de menor porte venderem materiais de construção pela internet.

Assim, em sua história, o segmento de materiais de construção foi caracterizado pela ascensão de inúmeros tipos de canais, que combinados, atenderam e atendem às diversas necessidades dos consumidores e suas obras: lojas de bairro, lojas próprias ou franqueadas, médias, grandes, especializadas em materiais elétricos, hidráulicos, básicos, cerâmicos, pisos, home centers, atacarejos, guide shops, e-commerces, marketplaces...

Provavelmente esquecemos algum tipo, mas não podemos esquecer que esse segmento centenário sempre foi marcado pela diversidade e complementaridade.

Duas palavras essenciais para garantir seu crescimento pelos próximos 123 anos.


A Fundação de Dados é um sistema de pesquisas e inteligência de mercado com o propósito de compartilhar conhecimento e contribuir para o desenvolvimento do segmento de materiais de construção.

Newton Guimarães

Head
newton@fundacaodedados.com.br

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