OBRA SEM MÃO DE OBRA

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), o desempenho admirável das vendas de materiais de construção não se traduziu no aumento das contratações de pedreiros, pintores, eletricistas, encanadores e demais executores para realizações de obras e reformas residenciais.

Na mais recente Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), as vendas de materiais de construção cresceram 10,1%, em volume de vendas (real/nominal deflacionado), e, 15%, nominalmente (volume de vendas inflacionado), no comparativo acumulado ano novembro de 2020 com acumulado ano novembro de 2019.

Porém, quando recorremos à Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), havia 5.922 milhões de executores trabalhando, predominantemente de maneira informal em construções, reformas, manutenções e alterações de imóveis, no trimestre terminado em novembro de 2020, ante 6.925 milhões, no trimestre terminado em novembro de 2019.

Em outras palavras, no mesmo período em que o comércio de materiais de construção cresceu dois dígitos, foram perdidos 1.003 milhão de trabalhadores na atividade, de um total, no geral Brasil, de 8.838 milhões de trabalhos perdidos.

Ainda, no mesmo período comparativo, o salário médio real desses executores de obras e reformas decresceu 1,3%, passando de R$1.856,00, no trimestre terminado em novembro de 2019, para R$1.831,00, no trimestre terminado em novembro de 2020, sinalizando, justamente, desaquecimento nas contratações.

Reforça essa tese que, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), no ano de 2020, a inflação da mão de obra foi de -0,41%, enquanto alguns itens de materiais básicos dispararam, como tijolo, com 29,79%; material hidráulico, com 18,19%, ou, cimento, com 17%.

Baixa procura por serviços paralelamente à alta procura por produtos.

Esta é mais uma distorção causada pela injeção de recursos financeiros do auxílio emergencial, estimada em R$322 bilhões, entre os meses de abril e dezembro de 2020, que possibilitou aos consumidores de menor poder aquisitivo melhorarem a precariedade de seus lares, ou, ainda, darem continuidade às obras paralisadas, por meio, principalmente, da autoconstrução.

Embora tenha-se falado muito dos consumidores de maior poder aquisitivo, que ressignificaram os seus lares e os adaptaram para o desenvolvimento de atividades diversas, outrora desenvolvidas fora do lar, ao que tudo indica, a movimentação no comércio do segmento durante a pandemia ocorreu, na maior parte, graças ao primeiro perfil de consumo citado acima, tendo como base a precariedade das habitações brasileiras.

E, esse perfil, quando depende apenas de emprego e renda, subsiste consumindo o básico, deixando para “quando der” o luxo de lares melhores.


Aos leitores que tiverem interesse em receber a análise da PNAD Contínua, com mergulho na atividade Construção, solicitem pelo e-mail de contato do portal.

A Fundação de Dados é um sistema de inteligência de mercado especializado no consumo de materiais de construção, móveis e itens para o lar, que realiza pesquisas e estudos próprios, multiclientes e customizados.

Newton Guimarães

Head
newton@fundacaodedados.com.br

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