Etimologicamente, a palavra crédito deriva do latim creditum, que pode ser traduzido como “coisa confiada”.
Ou seja, essencialmente significa confiança.
Portanto, nos pilares que sustentam o comércio de materiais de construção, emprego-renda-confiança-crédito, esse sentimento teria peso dobrado.
Tanto na concessão de crédito quanto na confiança do consumidor que o contrairá.
Segundo o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) mais recente, a confiança do consumidor na economia e nas próprias finanças cresceu 0,5 ponto na passagem de setembro para outubro de 2026 (com ajustes sazonais).
Dessa maneira, interrompeu cinco meses consecutivos de queda.
No entanto, no comparativo com os mesmos períodos dos anos anteriores (sem ajustes), o ICC do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) somente está acima de outubro de 2021, quando a sociedade ainda se recuperava de uma nova onda da pandemia (vide gráfico ao final).
Segundo o próprio instituto, confiança em alta induz consumo, em baixa, reduz. Acrescentaríamos, principalmente o consumo de bens duráveis, como materiais de construção para obras e reformas.
Já o crédito, especialmente o livre (com taxas livremente negociadas entre bancos e clientes) segue caro e arriscado, estimulando o governo a compensá-lo com a oferta de crédito direcionado (com taxas mais vantajosas reguladas por políticas públicas).
Ambos retroalimentam o endividamento e inadimplência do consumidor já elevados, sendo que o segundo também aumenta o endividamento público.
E, consequentemente, piora a qualidade do primeiro, criando um círculo vicioso.
Os dados mais dramáticos e fáceis de compreender vêm, justamente, de um birô de crédito.
Segundo a Serasa, em agosto passado, 83,9 milhões de CPFs estavam inadimplentes, portanto, negativados para contratação de crédito mediante consulta.
Isso significa 51,1% da população adulta brasileira; 5,1 milhões acima do mesmo mês de 2025 e 11,4 milhões acima do mesmo mês de 2024 (vide gráfico ao final).
Há Unidades Federativas como Amapá, Distrito Federal, Amazonas e Mato Grosso do Sul com mais de 60% da população adulta negativada, com o Rio de Janeiro logo após, chegando a 59,5%.
É necessário quebrar esse círculo vicioso com medidas estruturais e não apenas com medidas paliativas e eleitoreiras, como os sucessivos programas de perdão e renegociação de dívidas e, até mesmo, de distribuição de dinheiro, a exemplo do Pix MEI.
Começar com um plano de reequilíbrio fiscal de verdade já traria ganhos imediatos em relação à confiança dos agentes de mercado e redução das expectativas de inflação, proporcionando um espaço maior para o Banco Central (BC) continuar o ciclo de redução da taxa Selic, barateando o crédito e as dívidas.
As projeções de vendas para o comércio de materiais de construção, segundo os nossos modelos estatísticos, estão piorando, aumentando a probabilidade de retração dos desempenhos reais (deflacionados) em 2026 e 2027, em detrimento do cenário anterior de estabilidade, com possíveis crescimentos mínimos.
Mantém-se as perspectivas de crescimentos somente devido à inflação.
Por ora, os dados consolidados do comércio de materiais de construção, segundo a mais recente Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), não são auspiciosos.
Em faturamento real, no acumulado das variações mensais de janeiro a agosto de 2026 decresce 0,4%; no comparativo acumulado ano com o mesmo período acumulado do ano anterior decresce 1%; no comparativo últimos 12 meses com os últimos 12 meses anteriores decresce 1,4% (vide gráfico ao final).
Ao que tudo indica, o mercado de trabalho aquecido e com ganhos reais no rendimento médio das pessoas trabalhando, somado aos estímulos fiscais e creditícios governamentais, garantem a sobrevivência do comércio de materiais de construção.
Possivelmente, no perfil de consumo para pequenos reparos e manutenção doméstica, afinal, sabemos desde a pandemia que o comércio do segmento vende gêneros de primeira necessidade.
Mas as condições adversas relativas à confiança não permitem um crescimento sustentável, baseado no perfil de consumo para obras e reformas residenciais.
Portanto, para o comércio de materiais de construção não falta trabalho nem dinheiro; falta algo muito mais caro: confiança.
Baixar gráficos: confiança, crédito, comércio matcons
No próximo artigo, retomaremos as análises microeconômicas do Painel Comportamental de Consumo de Materiais de Construção, dando sequência ao artigo Eletricistas são os executores mais bem avaliados nas obras, e os azulejistas, os piores.
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