Comércio de materiais de construção poderá crescer graças aos estímulos governamentais

Este artigo é uma sequência do artigo Comércio de materiais de construção, com sorte, andará de lado por mais um ano, publicado em 25 de fevereiro passado, indicando, como o próprio título já dizia, que a tendência de queda no faturamento real do setor em 2026 poderia ser mitigada ou revertida pelos estímulos fiscais e creditícios do Governo Federal.

Naquela época, ainda não havia o conflito no Oriente Médio e a oficialização de uma candidatura presidencial competitiva contra o presidente Lula, com a inflação convergindo ao centro da meta e perspectivas de uma taxa básica de juros, ao final de 2026, em torno de 12% ao ano.

Neste momento, o conflito no Oriente Médio está em aberto, desarranjando os já precários fundamentos econômicos que permitiam certo controle da inflação e redução da taxa básica de juros, a qual deverá agora encerrar 2026 em torno de 14% ao ano.

Se uma taxa Selic de 12% ainda era contracionista, 14% o é ainda mais.

Já a candidatura de Flávio Bolsonaro, que, embora em determinado momento tenha se mostrado competitiva, provavelmente está comprometida devido aos últimos fatos, aumentando as chances de reeleição do atual presidente, caso não surja outro nome competitivo na oposição.

No entanto, voltando ao período anterior, já com as consequências da guerra no Oriente Médio e a até então viabilização de uma candidatura da oposição, acompanhada da devida queda de popularidade do atual mandatário, o Governo Federal, guiado pela lógica eleitoral, turbinou os estímulos fiscais e creditícios.

Se no artigo de fevereiro eram estimados em aproximadamente R$ 90 bilhões, agora já há instituições financeiras estimando mais de R$ 200 bilhões.

Isso é muito dinheiro na economia! Não há taxa Selic que resista!

Somente em relação ao Programa Reforma Casa Brasil, com impacto direto no comércio de materiais de construção, houve ampliação do limite de renda familiar mensal para a sua elegibilidade, ao passar de R$ 9,6 mil para R$ 13 mil, com a redução das taxas de juros de financiamento para 0,99% em todas as faixas de renda, ante juros entre 1,17% e 1,95% anteriormente.

O programa também ampliou o prazo de pagamento de 60 para 72 meses e elevou o valor máximo financiável de R$ 30 mil para R$ 50 mil, destinado aos materiais de construção e mão de obra.

Tais ajustes ocorrem pela percepção no varejo de seu baixo impacto (não há dados oficiais sobre o andamento do programa), possivelmente também devido ao elevado contingente de consumidores endividados e inadimplentes.

Ato contínuo, o Governo Federal lançou o Novo Desenrola Brasil, destinado às pessoas físicas com renda bruta de até cinco salários mínimos.

De imediato, serão desnegativados nomes com dívidas de até R$ 100,00 e renegociadas dívidas em até 90%, com taxa de juros máxima de 1,99% ao mês em até 48 meses e com possibilidade de uso de 20% do saldo do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) ou até R$ 1.000,00.

Porém, dados relativos ao antigo Desenrola Brasil, encerrado há apenas dois anos, demonstram claramente que, embora ocorra, de fato, a desnegativização de milhões de nomes, o efeito imediato no endividamento das famílias em relação à renda acumulada é mínimo (no link do final do artigo, liberamos o paper mensal deste mês, no qual aprofundamos esse tema).

Ou seja, os desnegativados imediatamente contraem novas dívidas, pela própria renegociação proporcionada pelo programa e pela contratação de novos créditos estimulados pelo Governo Federal (com juros subsidiados ou reduzidos) ou pelas instituições financeiras a juros de mercado.

Apenas para constatação, quando o programa anterior terminou, a taxa básica de juros estava em 10,5% ao ano; desta feita, quando sua nova versão terminar, estará em aproximadamente 14%.

Assim, enquanto não forem endereçadas as verdadeiras razões do endividamento e inadimplência dos consumidores, como a falta de educação financeira da população (que continuará sem a devida experiência do aprendizado, devido ao ciclo de socorros governamentais para renegociação de dívidas, inclusive utilizando fundos públicos), o spread bancário e o crescente endividamento público, o programa trará um alívio imediato com possível agravamento a médio prazo.

E continuaremos perdendo tempo com discussões diversionistas, que creditam a um só fator esse endividamento, como as Bets. Ou, talvez, no próximo programa daqui dois anos, as canetas emagrecedoras.

No entanto, esse período de alívio imediato, conjugado com os diversos estímulos fiscais e creditícios, o aquecimento do mercado de trabalho e o crescimento real da renda individual e total (massa salarial) cria uma janela de oportunidade para o comércio de materiais de construção nos próximos meses.

Por outro lado, o processo inflacionário no segmento está mais agressivo do que na economia em geral, encarecendo ainda mais o consumo para obras e reformas residenciais (daí, os ajustes no Programa Reforma Casa Brasil).

Enfim, entre desestímulos mercadológicos e estímulos governamentais, o título desse artigo poderia ser adaptado do artigo de fevereiro passado: Comércio de materiais de construção, com estímulos governamentais, poderá crescer neste ano.

E o desfecho do artigo também poderia ser o mesmo: a conta será paga em 2027.

Com a diferença de que, de programa em programa, essa conta ficará ainda mais salgada.

Daqui a três meses, com a atualização dos principais dados setoriais do primeiro semestre e novas alterações conjunturais, continuaremos essa análise, com seus acertos e erros.

No próximo artigo, retomaremos os recortes do Painel Comportamental de Consumo de Materiais de Construção, sempre que possível extrapolados para o ambiente macroeconômico.

Empresas Atendidas

Artigos anteriores

45,1% dos clientes aprovam as lojas de tintas, contra 25,7% dos home centers e 21,3% das lojas de bairro

No comparativo ano de 2025 com 2024, segundo a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), o...

Oferta de crédito não é a solução para o comércio de materiais de construção

A afirmação contraintuitiva é proposital, uma vez que um dos principais pilares dos estímulos à...

Comércio de materiais de construção poderá crescer graças aos estímulos governamentais

Este artigo é uma sequência do artigo Comércio de materiais de construção, com sorte, andará...