O término da temporada de dados setoriais fidedignos e que fazem preço no mercado, relativos ao primeiro semestre de 2026, permite uma leitura mais acurada do cenário para o comércio de materiais de construção.
Habitualmente, ancoramos as leituras em análises anteriores, nesse caso, de três meses atrás: Comércio de materiais de construção poderá crescer graças aos estímulos governamentais.
Dessa maneira, publicizando o que foi dito antes, não incorremos na tentação de valorizar os acertos e esconder os erros analíticos.
Em resumo, segundo a nossa ferramenta de IA, “O artigo anterior sustenta que a ampliação dos estímulos fiscais e creditícios do governo compensou a piora do cenário macroeconômico. Mudanças no Reforma Casa Brasil, o Novo Desenrola Brasil e o fortalecimento do emprego e da renda podem favorecer as vendas de materiais de construção em 2026. A conclusão é que o setor pode crescer neste ano, mas à custa de desequilíbrios que tenderiam a aparecer em 2027.”
Retomando a inteligência natural, segundo os dados mais recentes da Serasa, em junho de 2026 havia um contingente recorde 83,7 milhões de consumidores inadimplentes (negativados para contratação de crédito mediante consulta), crescimento de 200 mil consumidores em relação a maio.
Já em relação ao mesmo mês de 2025, o crescimento foi de 5,9 milhões de inadimplentes e, em relação ao mesmo mês de 2024, 11,2 milhões, totalizando 50,95% da população adulta.
Portanto, o programa Novo Desenrola Brasil, lançado em 4 de maio passado com o objetivo de desnegativar CPFs, não está surtindo os efeitos desejados no cadastro do bureau de crédito.
É importante frisar que os dados da Serasa são os mais sensíveis e abrangentes do mercado, pois refletem atrasos em bancos, instituições financeiras em geral, cartões de crédito, utilities (contas básicas, como gás, luz, água etc.), empresas varejistas e de serviços diversos.
Outras fontes, como a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Banco Central do Brasil (BCB) –(vide link com gráficos no final) e o balanço dos principais bancos reforçam a conclusão de que o Novo Desenrola Brasil não está reduzindo o saldo do endividamento e inadimplência.
Portanto, reitera-se a conclusão de que as razões para tal situação são estruturais, como a falta de educação financeira, juros elevados para novos empréstimos, encarecimento de dívidas já contraídas, crédito rotativo do cartão acima de 440% ao ano e oferta agressiva de crédito por fintechs e direcionado pelo próprio governo federal (com juros subsidiados ou reduzidos).
Nesse último, como poderia dizer a ex-presidente Dilma Rousseff, “Não vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta, mas quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta”.
Os ajustes recentes no programa Reforma Casa Brasil visaram justamente dobrar a aposta em sua efetividade, até então irrelevante no comércio de materiais de construção.
Segundo notícias veiculadas na imprensa especializada 1 (não há dados oficiais nos órgãos do governo federal), utilizando como fonte o Ministério das Cidades, até meados de julho passado haviam sido liberados R$ 2,7 bilhões em crédito para obras residenciais, uma fração de 6,7% do orçamento de R$ 40 bilhões do programa.
Em cálculos da Fundação de Dados, se esse montante fosse gasto neste ano, 55%, ou cerca de R$ 1,48 bilhão, seriam destinados à compra de materiais de construção – com os outros 45%, à contratação de mão de obra –, com impacto de aproximadamente 0,4% no sell out do comércio do segmento, estimado em R$ 336,5 bilhões (cálculo baseado na PAC/IBGE 2024, PMC/IBGE 2025 e projeções Fundação de Dados para 2026, atualizadas em agosto) 2.
Também hábitos dos consumidores foram desconsiderados nas expectativas do programa, como a predominância do uso de recursos próprios para a realização das obras residenciais, muitas vezes em capítulos e com baixa incidência dos financiamentos e empréstimos bancários.
Segundo o Painel Comportamental de Consumo de Materiais de Construção, considerando 1.020 consumidores que realizaram obras/reformas residenciais, 82,8% utilizaram recursos próprios e 17,2% recorreram a empréstimo/financiamento bancário.
Quem tiver interesse em ler a análise completa dos dados acima, recomendamos o artigo 82,8% das obras residenciais são pagas com recursos próprios.
Paralelamente, a inflação de 12 meses da cesta de materiais de construção segue acima da inflação geral, em 6,47% e 4,44%, respectivamente, com importantes categorias estimulando-a, como Cimento e Material Hidráulico, em 14,67% e 15,43%, respectivamente.
Já o mercado de trabalho, no comparativo do trimestre móvel abril/maio/junho de 2026 com o mesmo trimestre móvel do ano anterior, permanece como sustentáculo mais sólido da economia, com um acréscimo de 741 mil pessoas ocupadas (trabalhando), ganhos de 2,8% em seus rendimentos médios reais (descontando a inflação) e consequente aumento de R$ 13,2 bilhões na massa salarial real (recursos financeiros a mais na economia).
Assim, mesmo nessa condição, provavelmente, os ganhos da massa salarial real estão sendo mais direcionados para bens de primeira necessidade, como alimentos, bebidas, medicamentos e afins, com maiores impactos no varejo alimentar e farmacêutico.
Por fim, os estímulos fiscais e creditícios do Governo Federal em ano eleitoral poderão somar R$ 278,3 bilhões até dezembro 3, como a isenção do imposto de renda que injetou aproximadamente R$ 32 bilhões no mercado de consumo nos primeiros meses deste ano, mas perdendo efeito nos meses seguintes.
A conjuntura macroeconômica crítica não pode ser caracterizada como uma crise, uma vez que o PIB do Brasil deverá crescer aproximadamente 2% neste ano, desacelerando minimamente em relação aos 2,3% de 2025.
Para o comércio de materiais de construção, essa é uma conjuntura propensa à redução da realização de obras e reformas residenciais e crescimento dos pequenos reparos, manutenções domésticas e melhorias pontuais, provavelmente beneficiando mais o varejo de proximidade (Lojas de bairro) e o atacarejo e menos os home centers, em especial aqueles que não se diferenciaram e continuam sendo apenas lojas grandes.
Na passagem de maio para junho deste ano, o desempenho do comércio de materiais de construção, segundo a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), decresceu significativamente: -3,5% em volume de vendas (faturamento real/deflacionado) e -3,1% nominalmente (faturamento percebido/inflacionado), alterando substancialmente as projeções estatísticas.
Mesmo assim, segundo as projeções deste mês (atualizadas a cada novo input de dados da PMC), realizadas pela empresa especializada Best Forecast Marketing e Modelagem com apoio da Fundação de Dados, o comércio de materiais de construção brasileiro deverá crescer 0,4% em volume de vendas, após decrescer 0,1% no ano anterior, e crescer nominalmente 3,7%, após crescer 2,4% no ano anterior.
Permanece, portanto, a leitura anterior, de que o comércio do segmento poderá crescer moderadamente em faturamento real no ano vigente, também graças aos estímulos fiscais e creditícios, e crescer mais expressivamente em faturamento nominal, devido à inflação elevada da cesta de materiais de construção.
E de que, por bem ou por mal, a conta desses estímulos e do endividamento do Governo Central, empresarial e dos consumidores será paga em 2027.
Este artigo foi baseado na Sinopse Executiva Panorama Setorial Agosto 26 (paper mensal) da Fundação de Dados. Quem tiver interesse em acessá-la com os devidos gráficos, clique aqui.
1 Informação baseada em fontes fidedignas, entre elas o Broadcast | Agência Estado: https://www.broadcast.com.br/news/programa-de-credito-para-reforma-nao-deslancha/
2 Elaborações baseadas nas leituras PAC e PMC/IBGE e devidas atualizações mensais e projeções Best Forecast / Fundação de Dados (atualizadas em agosto)
3 Informação baseadas no orçamento federal e em estudo do economista Marcos Mendes, publicada no jornal O Estado de São Paulo: https://www.estadao.com.br/economia/gastometro-de-lula-mostra-que-presidente-ja-gastou-r-2783-bilhoes-para-tentar-reeleicao/?utm_source=estadao:app
No próximo artigo, apresentaremos dados inéditos sobre o processo de compra de uma importante categoria para o comércio de materiais de construção: piso porcelanato.
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